OS TRIBALISTAS RETORNAM AOS PALCOS 16 ANOS DEPOIS

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Parecia até mais um efeito especial. No exato momento em que Marisa Monte terminou de apresentar “Água também é mar”, a primeira composição assinada pela carioca com o baiano Carlinhos Brown e o paulista Arnaldo Antunes, caiu uma tromba d’água. A música, que pede que se “aguarde o temporal, (pois) chuva também é água do mar lavada”, foi recebida como uma benção pelos fãs aglomerados perto do palco, na noite deste sábado no estádio Fonte Nova, em Salvador. Mãos eram jogadas aos céus e sorrisos abertos nem se importavam com as roupas encharcadas. Pudera. Como não entraram em turnê após o lançamento de “Tribalistas” (2002), a espera pelo encontro ao vivo com o trio já ultrapassara a década e meia. Com uma banda afiada, formada por Pedro Baby (violão e guitarra), Dadi Carvalho (baixo, guitarra, teclados), Marcelo Costa (bateria) e Pretinho da Serrinha (percussão, cavaquinho e guitarra), eles se apresentarão em seguida no Rio, na Marina da Glória, na sexta (3) e no sábado desta semana.

— É a lavagem da tribo. Só mesmo aqui em Salvador — disse Carlinhos, o anfitrião de uma noite que também celebrava o segundo disco do trio, “Tribalistas” (2017).

Foi na Bahia, afinal, lembraram os três, que eles escreveram todo o repertório conjunto do grupo. O show tem produção caprichada, com destaque para a montagem de vídeos pensada pelo editor de arte Batman Zavareze (também responsável pela ponte entre canção e tecnologia no show “Verdade uma ilusão”, de Marisa Monte, em 2012-13). Há imagens do Acervo Carnavália, do Arquivo Nacional e do filme “Limite”, de Mário Peixoto, entre outras.

O espetáculo dependeu dos humores de São Pedro para driblar o previsível. Para o bem e para o mal. A chuva parece ter contribuído para problemas técnicos que geraram uma momentânea falta de sincronia, na primeira parte do show, entre o que se cantava e as imagens no telão. Marisa repetiu um “estamos resolvendo os problemas” até tudo voltar aos eixos no sonho pós-hippie de beleza ensaiada imaginado pelo diretor Leonardo Netto, com iluminação de Juarez Farinon e som de Daniel Carvalho.

As 28 músicas apresentadas foram um mix de composições do primeiro disco (celebrado pela plateia, animadamente, até em seu lado B, como “Carnalismo” e “Lá de longe”) e do segundo álbum (com menor aceitação na noite de sábado, com exceção de “Diáspora”, com palco e plateia embarcando em uma viagem por mares bravios, e, especialmente, “Aliança”, presente na trilha sonora da novela “O outro lado do paraíso”, da TV Globo). Houve também hits de Marisa Monte, incluindo “Amor I love you” e “Depois”, cantados em coro ensurdecedor pelo público que esgotou os 18 mil ingressos postos à venda. O cardápio agradou em cheio a casais (meninos e meninas, meninos e meninos, meninas e meninas, de todas as idades) e famílias, em um roteiro que privilegia o romântico, deixando em segundo plano aventuras mais dançantes.

Em sintonia com o que se via nos telões, os figurinos de Rita Murtinho apostaram na cor e na brincadeira séria do carnaval tropicalista enfatizado nas peças usadas por Marisa. Um dos momentos mais impactantes foi em “Um só”, quando imagens típicas de retratos de anônimos pendurados em casas do interior do Brasil Profundo, com suas expressões sérias mesmo em ocasiões festivas, como casamentos, se juntaram, aos poucos, às do trio.

O bis, com “Já sei namorar” e “Velha infância” foi tão catártico quanto óbvio. Nem a boa participação especial de Margareth Menezes em “Passe em casa”, que encerrou o primeiro bloco, fez o público arregalar os olhos, já que ela também assina a faixa e é algo como uma tribalista honorária. Ao fim, ficou a sensação de que a ideia de um Brasil era louvada na comunhão no palco de parceiros oriundos das três maiores cidades do país, São Paulo, Rio e Salvador. E o Brasil sonhado por Arnaldo, Marisa e Carlinhos em “Tribalistas tour 2018” é decididamente mais leve, amoroso e onírico do que a realidade fora do Fonte Nova.

A turnê inédita dos Tribalistas segue do Rio para Recife (10/8), Fortaleza (11/8), São Paulo (18/8), Porto Alegre (24/8), Curitiba (25/8), Brasília (1/9) e Belo Horizonte (7/9), antes de um giro internacional. Ainda há ingressos para os dois shows cariocas.

 


Rádio79

Ribeirão Preto

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